Assistindo a uma situação ontem imediatamente fui levada ao passado, e depois mais tarde, já deitadinha em minha cama o passado veio me visitar.
Vi-me menina, na casa dos meus pais, lá na rua Aparecida em Bauru, sim, casa dos meus pais, éramos constantemente lembrados de uma maneira ou outra que ali não era a nossa casa, que quando tivéssemos a nossa casa e donos de nossos narizes faríamos o que bem entendêssemos. E isto não era uma particularidade dos meus pais, era o costume da época.
Nossa família era composta de 8 pessoas, papai, mamãe, três filhos e três filhas. Os filhos em idades próximas, só o mais velho era 4 anos que o segundo, o restante sempre em torno de 2 anos mais velhos uns que os outros.
Meus pais trabalhavam muito, o sustento de todos nós dependia unicamente do bolso do meu pai e da sabedoria da minha mãe em administrar este bolso.
Houve época em que meu pai trabalhou em 3 empregos formais diferentes, fora os bicos, ganhava um dinheirinho fazendo topografias de terrenos, plantas de prédios e o que fosse preciso.
Todos ajudavam, em trabalho de campo para medir os terrenos meu pai contava permanentemente com a ajuda dos meus irmãos mais velhos e de vez em quando com a ajuda de todos, cada um fazia o que podia, o que o tamanho e a maturidade permitia, aos mais velhos os trabalhos mais pesados e complicados, às vezes o trabalho do mais novo se resumia em carregar a trena, mas estava ali aprendendo a colaborar.
Ajudávamos também com os cálculos, todos que iam aprendendo fazer as contas eram convocados para colaborar, todo mundo fazia as mesmas contas, se os resultados fossem iguais era sinal que estava certo e passava-se para a próxima conta, se apenas um resultado fosse diferente, repetíamos a conta. Nós com lápis, papel e borracha, meu pai com uma maquina de calcular manual, verdinha.
E se trabalhávamos juntos, divertíamos juntos também, íamos ao clube, íamos acampar e pescar. Ajudávamos no acampamento e a limpar o peixe. Quando a peiscaria rendia muito mais do que podíamos comer, meus pais distribuíam os peixes pela vizinhança, devidamente limpos é claro.
Meu pai era um homem extremamente inteligente, criativo e motivador. Era também extremamente corajoso e violento.
Liberdade de expressão não existia nem em frase, nem para os cidadãos que viviam em plena ditadura e nem no seio familiar. Do mesmo modo do que o presidente da república dizia era lei para a nação o que nossos pais diziam também era lei em nossa casa.
Não éramos santos, fazíamos artes e éramos constantemente corrigidos, raramente com palavras ou conselhos, o mais usual eram as surras ou castigos vergonhosos.
Os tempos eram difíceis, tudo era muito caro, coca-cola era algo muito raro, o refrigerante mais comum era tubaína, mas também era só de vez em quando, mas tínhamos groselha e limonada.
Minha mãe, cozinheira de mão cheia, fazia comidas deliciosas, paçocas, pés-de-moleque, canjica, bolo, mantecal, rosquinha de pinga, pasteis, canudinhos recheados e uma infindável lista de coisas gostosas. Ali também auxiliávamos, cortando alguma coisa, recheando outra, lavando as louças e limpando a cozinha.
Meu pai era boêmio, e muitas foram as noites que fomos acordados ao som do violão e outros instrumentos musicais que ele e seus amigos tocavam, nessas noites eram compostas de musica, cabrito, frango a molho pardo ou carneiro, esses animais invariavelmente roubados como farra desses meninos crescidos, eram mortos, limpos e preparados por minha mãe e saboreados por todos nós, muitas vezes acompanhados de vinho para os adultos e sangria que minha mãe fazia com o vinho para nós e para ela, pois minha mãe não bebia nada alcoólico.
Tínhamos três espécies de roupa; a de usar em casa, os uniformes para a escola (que era pública e de boa qualidade) e a roupa de sair, quase sempre confeccionadas por minha mãe. Os mais novos herdavam as roupas dos mais velhos, além das roupas novas. Nada era desperdiçado.
Em casa havia passarinhos, meu pai sempre gostou o que acabou contagiando os dois filhos mais velhos que também gostavam e cuidavam desses passarinhos, trocando água, comida, cobrindo e recolhendo ou colocando as gaiolas para fora. Sempre tivemos cachorro, quase sempre fox-paulistinha que ao contrário dos de hoje que são alimentados de ração eram alimentados com restos de comida ou um preparado de fubá e muchiba ou bofe que o bucheiro ou o açougueiro DAVAM.
Mas todas estas lembranças apenas por ver uma atitude muito feia de uma filha com um pai, porque fui levada a refletir, os tempos eram duros, as dificuldades eram imensas, nem tudo era harmonia, mas os filhos sabiam o seu lugar, por medo ou seja la o que for, os mais velhos eram respeitados, um filho não desmentia os pais, não erguia a voz, não xingava, não humilhava, sabia que devia respeito a quem o sustentava e o abrigava.
Uma mãe ensinava o valor do respeito e o pai consolidava este ensinamento.
Hoje o que vemos muitas vezes é que a tal liberdade de expressão nem sempre é utilizada com sabedoria, não sou nunca fui e nem nunca serei a favor de violência, mas algo esta errado, pois infelizmente é grande a quantidade de filhos que não respeitam os pais, os tratam com zombaria, falam absurdas grosserias dentro do lar e também fora dele, não se importando com quem está ouvindo ou vendo. Se metem em assuntos em que não são chamados e não são de sua alçada. Querem tudo do bom e do melhor e quando contribuem para o bom andamento da casa é muito pouco e não raro de má vontade, se julgam cheios de direitos e nenhum dever. Lamentável